A história do forró foi escrita também — e sobretudo — por mulheres. Num Brasil dos anos 50 e 60, onde o palco era território masculino, elas subiram, cantaram, gritaram e reinaram. Esta sala é, antes de tudo, delas.
Marinês — A Rainha do Xaxado
Inês Caetano de Oliveira nasceu em 16 de novembro de 1935, em São Vicente Férrer, no sertão pernambucano. Seu pai era seresteiro e descendente de índios Airús, ex-cangaceiro do bando de Lampião. Sua mãe cantava na igreja. A família se mudou para Campina Grande, na Paraíba, onde Inês cresceu ouvindo a música de Gonzaga pelos alto-falantes da cidade.
Aos 10 anos, soube de um concurso de calouros na Rádio Borborema. Queria participar, mas o pai não deixaria. Combinou com o irmão de sair "para passear". Na hora da inscrição, inventou o nome "Maria Inês". O locutor anunciou "Marinês" — e ela gostou. O nome ficou para sempre.
Em 1955, em Propriá, Sergipe, um prefeito local promoveu o encontro de Marinês com Luiz Gonzaga. Na mesma noite, fizeram um show juntos. Gonzaga a convidou para o apartamento, queria saber se ela já havia dançado xaxado com parceiro. Num show seguinte, chamou o casal ao palco e declarou ao público:
Vocês sempre ouviram falar que os cangaceiros dançavam xaxado com o rifle empunhado na mão e o braço erguido para cima, vocês sabem por quê? Porque não tinham mulher para dançar a dois... Na minha corte está faltando esta menina: a Rainha do Xaxado.
Foi a primeira mulher a formar um grupo de forró — "Marinês e sua Gente". Seu primeiro LP, "Vamos Xaxar" (1957), vendeu mais de 700 mil cópias. Gravou mais de 45 discos. Foi atriz, apresentadora e se formou em Direito. Morreu em 14 de maio de 2007, em Recife, de AVC, aos 71 anos.
Aquela que abriu picadas numa floresta de preconceitos no Brasil dos anos cinquenta.
Clemilda — A Rainha da Embolada
Clemilda Pereira da Silva nasceu em 4 de janeiro de 1943, em Japaratuba, Sergipe. Criada numa família pobre do interior, cresceu ouvindo embolada e repente nos mercados e feiras. Começou a cantar na infância, mas só gravou seu primeiro disco em 1974, aos 31 anos — uma eternidade para a indústria da época.
Sua música era diferente. Enquanto as cantoras da época buscavam a delicadeza, Clemilda trouxe a irreverência. Letras maliciosas, duplos sentidos, humor ácido — tudo cantado com uma voz potente e uma presença de palco que não pedia licença. "Forró da Bundinha" não era só uma canção, era uma declaração de liberdade.
Gravou mais de 60 discos em uma carreira de quatro décadas. Em shows, lotava casas com um público que ia do sertanejo ao universitário. Era a rainha de um gênero que normalmente não tinha rainhas — a embolada — e o fazia com uma naturalidade que desafiava qualquer preconceito.
Eu canto o que o povo quer ouvir. E o povo quer ouvir a verdade, mesmo que ela venha com malícia.
Anastácia — A Rainha do Forró
Maria Anastácia de Queiroz nasceu em 28 de agosto de 1941, em Missão Velha, no Ceará, filha de agricultores. Cresceu ouvindo as festas juninas do Cariri cearense, onde o forró era a trilha sonora da vida. Começou cantando em festas locais, até que um dia tomou coragem e foi tentar a sorte no eixo Rio–São Paulo.
Diferente das outras cantoras da época, Anastácia tocava sanfona. Não era apenas intérprete — era instrumentista, compositora e líder do próprio grupo. Numa época em que a sanfona era instrumento de homem, ela subiu ao palco com o fole no colo e provou que o forró não tinha gênero.
O título de "Rainha do Forró" veio do próprio Luiz Gonzaga, que a apadrinhou artisticamente. Ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, gravou dezenas de discos e se tornou referência para gerações de mulheres que queriam tocar forró. Morreu em 17 de março de 2016, em Fortaleza, aos 74 anos.
Mulher não pode tocar sanfona? Pode sim. E eu toco melhor que muito homem.
Jackson do Pandeiro — O Rei do Ritmo
José Gomes Filho nasceu em 31 de agosto de 1919, na zona rural de Alagoa Grande, no Brejo da Paraíba. Negro, pobre, filho de oleiro e de Flora Mourão — cantadora de coco famosa na região. Nunca foi a uma escola. Trabalhou como engraxate, entregador de pão e biscateiro em Campina Grande.
Queria ser sanfoneiro, mas o instrumento era caro. A mãe lhe deu um pandeiro. Com ele, desenvolveu uma divisão rítmica que ninguém havia tentado antes na música brasileira — uma combinação de precisão e improviso que até hoje é estudada por musicólogos. Diz-se que o próprio João Gilberto aprendeu com ele a dividir a música.
O nome artístico nasceu de um apelido de criança: ele era fã dos filmes de faroeste americanos e se chamava de "Jack", inspirado no ator Jack Perrin. Um diretor de rádio o anunciou como "Jackson do Pandeiro" — sem avisar — e o nome ficou.
Em 1953, com 35 anos — tarde para a época — gravou seu primeiro disco: "Sebastiana" e "Forró em Limoeiro". Explodiu. Em 1954 foi ao Rio de Janeiro contratado pela gravadora Copacabana. Fez sucesso na Rádio Nacional. Casou com a parceira artística Almira Castilho em 1956.
Transitou do forró ao samba, passando por baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, frevo, jazz. Frequentou terreiros de candomblé — não por crença, mas para absorver as batucadas. Era um músico total. Morreu em 10 de julho de 1982, em Brasília, de embolia pulmonar, aos 62 anos — durante uma excursão, após um show.
Genival Lacerda — O Malicioso do Forró
Genival Cavalcanti de Lacerda nasceu em 6 de novembro de 1931, em Campina Grande, Paraíba. Filho de um barbeiro que tocava violão, cresceu em meio à música. Aos 14 anos já tocava sanfona nas festas do bairro. Migrou para o Recife nos anos 50, onde trabalhou como barbeiro enquanto tentava a carreira artística.
Começou na música séria, mas encontrou seu caminho na irreverência. Com letras cheias de duplo sentido e um humor que vinha do povo, Genival criou um estilo próprio que misturava forró, embolada e sátira. "Severina Xique-Xique", de 1975, é um monumento da cultura popular brasileira — gravada centenas de vezes, parodiada, citada, eternizada.
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, gravou dezenas de discos e se apresentou por todo o Brasil. Era presença garantida nos São Joões do Nordeste. Morreu em 7 de janeiro de 2021, em Recife, aos 89 anos, vítima de complicações da Covid-19.

