Existe um momento na história do forró em que o futuro bate na porta do presente. Em 1953, num palco improvisado de Garanhuns, um menino de 11 anos pegou uma sanfona e tocou para o Rei do Baião. Gonzaga ouviu, calou e disse: esse menino vai ser o maior sanfoneiro do mundo. O menino se chamava José Domingos de Moraes. O mundo o chamaria de Dominguinhos.
Neném do Acordeom
José Domingos de Moraes nasceu em 12 de fevereiro de 1941, em Garanhuns, no agreste pernambucano — terra de clima frio, brejo de altitude, café e sanfoneiros. O pai, Mestre Chicão, era sanfoneiro e afinador de acordeom. A mãe, dona Eugênia, rezadeira. A casa era humilde, mas cheia de música. Dominguinhos começou a tocar sanfona de oito baixos antes de aprender a ler.
Aos 9 anos já se apresentava nas feiras e festas da região como "Neném do Acordeom" — um menino franzino que mal sustentava o instrumento no colo, mas que tirava da sanfona sons que faziam os adultos pararem para ouvir. O pai o levava de feira em feira, de cidade em cidade, juntando trocados. Era uma infância de trabalho, poeira e estrada, mas era também uma infância de formação: cada baile era uma aula de repertório, cada sanfoneiro velho era um professor.
Em 1953, Luiz Gonzaga fazia uma turnê pelo interior de Pernambuco e se apresentou em Garanhuns. Alguém levou o menino Dominguinhos até o camarim. O menino, tremendo, pegou a sanfona e tocou. Gonzaga ouviu em silêncio, depois se virou para os presentes e disse:
Esse menino vai ser o maior sanfoneiro do mundo.
Gonzaga deu ao menino o apelido de "Dominguinhos" — diminutivo de Domingos — e, pouco depois, presenteou-o com uma sanfona de 80 baixos. Para um garoto do agreste, aquilo era como receber um passaporte para o mundo. A sanfona pesava quase tanto quanto ele, mas Dominguinhos aprendeu a carregá-la — e a carregou pelo resto da vida.
A Formação
Aos 14 anos, Dominguinhos mudou-se para o Rio de Janeiro, seguindo os passos de Gonzaga. Chegou como tantos outros nordestinos: com pouco dinheiro, muita fome e um instrumento. Integrou-se ao círculo de músicos que orbitava Gonzaga — sanfoneiros, zabumbeiros, trianguleiros —, e começou a tocar como acompanhante em bailes e gravações.
Mas Dominguinhos tinha algo que o separava dos demais: uma curiosidade musical insaciável. Enquanto os sanfoneiros tradicionais se mantinham dentro do vocabulário do baião e do xote, ele ouvia jazz nas rádios de ondas curtas, frequentava rodas de choro na Lapa, estudava harmonia com músicos eruditos. Trocou a sanfona de 80 baixos pela de 120 — instrumento mais pesado, mais complexo, com todas as notas cromáticas disponíveis. Ninguém no forró usava 120 baixos. Ele usou.
Sua técnica de fole — a capacidade de controlar a pressão do ar para criar dinâmicas de piano e forte — se tornou lendária entre os músicos. Os dedos corriam pelas teclas com uma velocidade que lembrava os pianistas de choro, mas com o suingue do sertão. Críticos musicais começaram a usar um termo novo: "forró-choro" — a fusão que Dominguinhos estava inventando sem dar nome.
Onde Gonzaga era força bruta, Dominguinhos era elegância. Onde Gonzaga era a voz do sertão que gritava para ser ouvida, Dominguinhos era a voz do sertão que sussurrava e fazia o mundo inteiro se inclinar para escutar.
A Parceria com Anastácia
Anastácia — nome artístico de Maria José de Carvalho Beltrão — nasceu em 1941, em Caruaru, Pernambuco. Era cantora, compositora e poetisa. Tinha voz forte e letras que vinham do cotidiano do sertão com uma precisão que só quem viveu aquela vida consegue alcançar. Em meados dos anos 1960, conheceu Dominguinhos. Casaram-se. E começaram a compor juntos.
A parceria Dominguinhos e Anastácia produziu mais de 200 canções — um dos catálogos mais ricos da música brasileira. Ela trazia as palavras; ele, as melodias. Mas a divisão nunca era tão simples: muitas vezes a letra sugeria o caminho harmônico, e muitas vezes uma melodia de Dominguinhos pedia palavras que só Anastácia sabia encontrar.
Nós não componhamos músicas, nós vivíamos elas.
Em 1973, a parceria gerou a canção que se tornaria uma das mais gravadas da história da música brasileira: "Eu Só Quero um Xodó". A melodia é de uma simplicidade enganosa — quatro acordes, uma linha vocal que qualquer pessoa consegue cantarolar. Mas é justamente essa simplicidade que a torna universal. A canção foi gravada por dezenas de artistas — de Gilberto Gil a Caetano Veloso, de Elba Ramalho a Marisa Monte. Virou hino. Virou patrimônio.
Anastácia foi chamada de "A Rainha do Forró" — título que carregou com a mesma dignidade silenciosa com que compunha. Morreu em 2 de setembro de 2014, um ano depois de Dominguinhos. A história dos dois é inseparável: quem fala de um, fala do outro.
O Virtuose Universal
A partir dos anos 1970, Dominguinhos ultrapassou as fronteiras do forró. Não porque abandonasse o gênero — nunca abandonou —, mas porque sua técnica e sua sensibilidade musical atraíam artistas de todos os mundos.
Gilberto Gil gravou "Eu Só Quero um Xodó" em 1973, numa versão tropicalista que levou a canção às rádios do Sudeste e do exterior. Chico Buarque o chamou para gravar. Elba Ramalho o considerava seu parceiro de palco ideal. Sivuca, outro gênio do acordeom nordestino radicado nos Estados Unidos, o tratava como igual. Hermeto Pascoal — o bruxo — dizia que Dominguinhos era "o acordeonista mais completo do Brasil."
Seus álbuns instrumentais — como "Festa" (1973) e "Dominguinhos e Convidados" (2003) — revelam um músico cuja linguagem não cabia em nenhum rótulo. Há faixas que começam como baião e terminam como jazz modal. Há improvisos que lembram Astor Piazzolla — o mestre argentino do tango novo —, com quem Dominguinhos é frequentemente comparado. Ambos pegaram gêneros populares considerados "menores" e os elevaram a um nível de sofisticação que obrigou o mundo erudito a prestar atenção.
Em 2008, recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes pelo disco "Conterrâneos". Não era o primeiro prêmio, não seria o último. Mas era o reconhecimento formal do que os músicos já sabiam havia décadas: Dominguinhos era um dos grandes instrumentistas do planeta.
Discografia Essencial
| Ano | Música | Parceria |
|---|---|---|
| 1973 | Eu Só Quero um Xodó | Anastácia |
| 1976 | Gostoso Demais | Anastácia |
| 1980 | Lamento Sertanejo | Gilberto Gil |
| 1981 | Isso Aqui Tá Bom Demais | — |
| 1996 | De Volta pro Aconchego | Nando Cordel |
| 2000 | Abri a Porta | Nando Cordel |
Os Discípulos
Gonzaga apadrinhou Dominguinhos. Dominguinhos, por sua vez, apadrinhou uma geração inteira. Não por vaidade — por vocação. Ele entendia que a sanfona nordestina só sobreviveria se houvesse quem a tocasse depois dele.
Waldonys — cearense de Fortaleza, apadrinhado simultaneamente por Gonzaga e por Dominguinhos. Virtuose técnico, capaz de tocar de olhos vendados, de costas para o público. Dominguinhos dizia que Waldonys "tocava como quem reza."
Mestrinho — Gabriel do Nascimento, nascido em 1994, começou a tocar sanfona aos 5 anos. É considerado o maior expoente da nova geração de sanfoneiros brasileiros. Sua técnica é herdeira direta de Dominguinhos: o fole controlado, a harmonia jazzística, a fusão de tradição e experimentação. Mestrinho é o elo mais recente da linhagem.
Chambinho do Acordeon — pernambucano que interpretou Luiz Gonzaga na cinebiografia "Gonzaga: De Pai pra Filho" (2012). Estudou com Dominguinhos para entender não apenas a técnica, mas a alma do instrumento. A preparação para o papel se transformou em formação musical permanente.
Há outros — dezenas de sanfoneiros jovens espalhados pelo Nordeste e pelo Brasil que citam Dominguinhos como mestre, mesmo os que nunca o conheceram pessoalmente. Sua influência é tão vasta que se tornou invisível: está em todo sanfoneiro brasileiro que ouse ir além do repertório básico.
A Linhagem
Existe no forró uma linhagem que não é de sangue, mas de sanfona. Ela começa com Januário José dos Santos — o pai de Gonzaga, lavrador e sanfoneiro do sertão de Exu, que tocava oito baixos nas festas de chão batido. Januário ensinou Gonzaga. Gonzaga ouviu Dominguinhos e disse: "Esse é o próximo." Dominguinhos formou Mestrinho.
Januário → Gonzaga → Dominguinhos → Mestrinho.
Quatro gerações. Quase um século de sanfona. Cada um herdou do anterior e acrescentou algo que não existia antes. Januário deu o instrumento. Gonzaga deu o gênero. Dominguinhos deu a sofisticação. Mestrinho está dando o futuro. A corrente não se quebrou.
Legado
José Domingos de Moraes — Dominguinhos — morreu em 23 de julho de 2013, em São Paulo, aos 72 anos, após longa batalha contra um câncer de pulmão. Gravou mais de 50 álbuns. Compôs mais de 500 canções. Recebeu múltiplos prêmios Grammy Latino. Tocou em palcos de cinco continentes.
Mas os números não contam a história real. A história real é esta: num país que frequentemente trata sua cultura popular como produto descartável, Dominguinhos provou que o forró — nascido no chão batido do sertão, criado para pés descalços e noites de lamparina — podia ser tão complexo, tão belo e tão universal quanto qualquer tradição musical do planeta.
Gonzaga inventou o forró. Dominguinhos o libertou.



