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Salle 3

Os Arquitetos do Baião

Humberto Teixeira e Zé Dantas — Os Compositores Invisíveis

Gonzaga era a voz, a sanfona e o chapéu de couro. Mas as palavras que o Brasil cantou foram escritas por dois homens que quase ninguém conhece. Um era advogado. O outro era médico. Juntos com Gonzaga, inventaram o baião.

Parecia que Humberto Teixeira e Zé Dantas estavam rivalizando em talento e genialidade, e, entre os dois, Luiz Gonzaga orquestrava o festival de obras-primas.

Antônio Maria, Jornal O Cruzeiro, 1950

Humberto Teixeira

Humberto Cavalcanti de Albuquerque Teixeira nasceu em 5 de janeiro de 1915, em Iguatu, no Ceará. Filho de família abastada, estudou música desde criança, tocou bandolim e flauta, e foi para o Rio de Janeiro em 1932 estudar Direito. Em 1934, aos 19 anos, já vencia concursos de composição carnavalesca ao lado de Ari Barroso.

Em agosto de 1945, Gonzaga foi até seu escritório de advocacia, indicado por um amigo. Os dois conversaram por horas. Gonzaga tocava pedaços de melodias do sertão. Humberto completava as letras. Chegaram à conclusão: o baião era o ritmo a apostar. A música "Baião" foi o primeiro resultado, gravada em 1946. Asa Branca veio em 1947.

A parceria durou cinco anos intensos — 27 músicas entre 1947 e 1952, incluindo o cânone fundador do gênero. Quando Humberto foi eleito deputado federal pelo Ceará em 1954, a parceria musical encerrou. Durante seu mandato, defendeu no Congresso Nacional os direitos autorais dos compositores brasileiros e representou o Brasil em congressos internacionais de autores. Morreu em 1979.

Zé Dantas

José Dantas de Souza Filho nasceu em 1921 em Carnaíba, às margens do rio Pajeú, no sertão pernambucano — terra natal também de Gonzaga. Era médico obstetra, violonista amador, apaixonado pela cultura sertaneja e boêmio confesso. No Rio de Janeiro dos anos 1950, vivia entre o hospital e os bares.

Conheceu Gonzaga no Recife em 1947. A primeira gravação da parceria foi "Vem Morena", em 1950. A partir daí, 46 músicas ao longo de 12 anos — mais do que Humberto Teixeira. Zé Dantas escrevia com uma precisão poética que capturava o cotidiano sertanejo em detalhe: os animais, os rios, as plantas, as figuras humanas típicas.

A injustiça histórica: Zé Dantas morreu jovem, em 1962, com 41 anos, quando o baião estava em declínio. Foi esquecido por décadas. Só na virada dos anos 1970 foi resgatado — quando Fagner, Alceu Valença e o Quinteto Violado releram suas composições. Hoje pesquisadores o apontam como possivelmente o maior dos três, como compositor puro.