ESC Fermer  ·  Ctrl+K Rechercher
Menu
Salle 2

O Altar do Rei

Luiz Gonzaga — 1912–1989

Ele nasceu no sertao mais seco do Brasil, fugiu de casa aos 17 anos, serviu no Exercito, chegou ao Rio de Janeiro sem dinheiro e sem nome. E levou o Nordeste ao Brasil inteiro.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caicara, no municipio de Exu, sertao de Pernambuco. Seu pai, Januario — lavrador e sanfoneiro —, tinha uma sanfona de oito baixos que o menino Luiz observava com olhos grandes desde crianca. Quando o pai ia embora tocar nas festas, Luiz ficava tentando reproduzir as notas de memoria.

Aos 17 anos, uma briga com o pai — por causa de uma moca cuja familia nao o aceitava — fez Gonzaga fugir de casa e se alistar no Exercito em Fortaleza. Serviu por dez anos. Participou da Revolucao de 1930 na Paraiba. Em 1939, deu baixa das Forcas Armadas e desembarcou no Rio de Janeiro com a roupa do corpo e a sanfona nas costas.

No Rio, tocava nos bares da Lapa e da Zona Norte para os migrantes nordestinos — o unico publico que reconhecia aquela musica estranha. Ate que, em 1941, foi ao programa de calouros de Ary Barroso na Radio Nacional e tocou uma valsa nordestina, "Vira e Mexe". Ganhou nota maxima. O mais temivel dos criticos de radio se rendeu.

A invencao do baiao

Em agosto de 1945, Gonzaga marcou uma reuniao com o advogado e compositor cearense Humberto Teixeira, que circulava pelos saloes elegantes do Rio. Os dois passaram horas conversando. Gonzaga tocava fragmentos de melodias do sertao. Humberto escutava e sugeria letras. Chegaram a um acordo: o baiao era o ritmo nordestino mais "urbanizavel" — o que tinha mais chances de conquistar o Brasil industrial e urbano do pos-guerra.

Em 22 de maio de 1946, a musica "Baiao" foi gravada. O genero tinha nome. No ano seguinte, viria "Asa Branca" — e nada mais seria igual.

Asa Branca (1947)

"Asa Branca" e baseada em um tema folclorico que Gonzaga conhecia desde crianca, pela sanfona do pai. A asa branca e uma pomba brava que foge do sertao ao pressentir os primeiros sinais da seca. Humberto Teixeira escreveu a letra — que fala de um homem que tambem precisa partir. A musica tem hoje aproximadamente 400 regravacoes, em portugues, ingles (David Byrne), chines, coreano e lingua senegalesa (Ameth Male). E considerada o hino nao-oficial do Nordeste.

O trio e a identidade visual

Gonzaga nao apenas definiu o som — definiu a formacao e o visual do forro.

A sanfona tem a funcao harmonica e melodica, a zabumba forma a base ritmica — marcando o tempo —, e o triangulo, o contratempo.

Luiz Gonzaga

O trio de sanfona, zabumba e triangulo foi uma criacao sua. Ele tambem definiu a disposicao no palco: os agudos do triangulo ao lado da mao direita da sanfona (que faz o solo agudo), com a zabumba grave do outro lado para equilibrar.

O chapeu de couro e o gibao vieram dos vaqueiros e cangaceiros do sertao. Gonzaga usou a estetica do sertao como identidade — o nordestino nao precisava se envergonhar de onde vinha.

O declinio e o retorno

Com a chegada da Bossa Nova em 1959 e da Jovem Guarda nos anos 1960, o forro desapareceu das radios do sudeste. Gonzaga voltou ao Nordeste, tocou em festas juninas, em circos, em feiras. Para o Brasil urbano, era "musica de nordestino velho".

Na decada de 1970, artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Geraldo Vandre releram Gonzaga. Seu filho, Gonzaguinha — com quem teve uma relacao dificil por anos —, tambem o resgatou. Em 1980, pai e filho fizeram juntos a tournee "A Vida do Viajante" pelo Brasil.

Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989, no Recife, vitima de cancer de prostata, aos 76 anos. O dia do seu nascimento, 13 de dezembro, e o Dia Nacional do Forro desde 2005.

Discografia Essencial