No final dos anos 1990, enquanto o forró eletrônico dominava as rádios e os grandes palcos do Nordeste, um grupo improvável de jovens — universitários paulistas, cariocas, mineiros — redescobriu o que seus pais nunca tinham conhecido: a sanfona, a zabumba, o triângulo. Três instrumentos. Nenhum teclado. Nenhuma guitarra. Só o essencial.
Parece contradição: o resgate da tradição mais antiga do forró não veio do sertão, mas dos campi universitários das grandes capitais do Sudeste. Não foram os filhos dos sanfoneiros que puxaram o fio — foram estudantes de classe média que nunca tinham pisado em chão batido. E, no entanto, ao ouvirem pela primeira vez uma sanfona de oito baixos tocando um baião de Gonzaga, sentiram que alguma coisa ali era mais verdadeira do que tudo o que as rádios ofereciam.
Foi assim que nasceu o forró universitário — um nome que muitos dos seus protagonistas rejeitam, porque o que eles faziam não era inventar um forró novo. Era voltar ao que já existia.
O Contexto: Um Vazio Sonoro
Para entender o resgate, é preciso entender o que estava sendo resgatado — e de quê. Nos anos 1990, o forró eletrônico havia se tornado uma indústria bilionária no Nordeste. Bandas como Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Aviões do Forró enchiam estádios com shows que tinham mais a ver com o axé e o pop do que com qualquer coisa que Gonzaga tivesse tocado. Os teclados substituíram a sanfona. As letras passaram a falar de festas genéricas, relacionamentos descartáveis, cerveja gelada. O triângulo desapareceu. A zabumba virou bateria eletrônica.
O forró pé-de-serra — aquele tocado com o trio acústico original, com letras que falavam do sertão, da saudade, da vida dura e bonita do interior — estava confinado a pequenos bares de periferia e a festas de São João no interior. Os velhos mestres estavam envelhecendo sem sucessores. A tradição estava morrendo — não de uma vez, mas aos poucos, como uma fogueira sem lenha.
A gente cresceu ouvindo aquilo nas rádios e achava que aquilo era forró. Quando alguém botou um disco de Gonzaga pra tocar, foi um choque. Era como descobrir que a comida que você comeu a vida inteira era de plástico — e de repente sentir o gosto de comida de verdade.
Falamansa — A Banda que Mudou Tudo
Em 1998, na Vila Madalena, bairro boêmio de São Paulo, um grupo de amigos fundou a Falamansa. O líder era Tato — Gustavo de Medeiros Lima —, compositor, cantor e sanfoneiro nascido em São Paulo mas apaixonado pelo forró nordestino. Ao seu lado, uma formação acústica clássica: sanfona, zabumba, triângulo, violão, percussão.
A proposta era simples e, naquele momento, quase revolucionária: tocar forró de raiz para jovens urbanos. Sem pedir desculpa. Sem modernizar. Sem enfiar guitarra elétrica. A Falamansa pegou a linguagem do pé-de-serra e a traduziu para uma geração que nunca tinha ido a uma vaquejada — mas que reconhecia naquele som uma alegria que não precisava de artifício.
O álbum de estreia, "Falamansa" (1999), já chamou atenção. Mas foi o segundo disco, "Deixa Entrar" (2000), que explodiu. A música "Xote dos Milagres" virou hino de verão. Com um refrão irresistível e uma melodia que grudava sem esforço, a canção entrou nas rádios, nas novelas, nos bares de praia. De repente, o forró acústico estava na boca de milhões de jovens que nunca tinham ouvido falar em Dominguinhos.
A Falamansa provou algo que a indústria fonográfica considerava impossível: forró de raiz podia vender disco, lotar casa de show, tocar em rádio FM. Não era preciso eletronizar. Não era preciso diluir. Bastava fazer com verdade — e com um sorriso.
Bicho de Pé — O Forró que Viajou o Brasil
Se a Falamansa abriu a porta, o Bicho de Pé a escancarou. Formado em São Paulo em 1999, o grupo liderado pela vocalista Janayna Pereira trouxe uma energia contagiante e uma presença de palco que conquistou públicos em todo o Brasil. Janayna era uma frontwoman magnética — cantava, dançava, interagia com o público com uma intensidade que fazia qualquer show virar festa de terreiro.
O Bicho de Pé levou o forró pé-de-serra a festivais de música, programas de televisão e circuitos universitários que jamais teriam incluído o gênero. Seus shows eram catárticos — três horas de xote, baião e arrasta-pé sem intervalo, com o público suando e sorrindo como se estivesse numa noite de São João em Campina Grande.
Junto com a Falamansa, o Bicho de Pé consolidou a ideia de que o forró acústico não era peça de museu — era música viva, capaz de arrastar multidões jovens para a pista de dança.
Trio Virgulino — Os Guardiões da Chama
Antes da Falamansa, antes do Bicho de Pé, já havia quem mantivesse a chama acesa. O Trio Virgulino, formado em São Paulo em 1996, era um dos poucos grupos que tocavam forró pé-de-serra autêntico na capital paulista durante os anos mais sombrios do domínio eletrônico.
Liderado pelo sanfoneiro César Nascimento, o Trio Virgulino não buscava hitparade. Tocava em bares pequenos, em festas comunitárias, em encontros de nordestinos expatriados. Sua música era uma ligação direta com Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca — sem filtro, sem concessão. Quando o movimento universitário explodiu, o Trio Virgulino já estava lá, com a estrada feita e o repertório pronto.
Eles foram, para muitos jovens forrozeiros, a primeira experiência ao vivo do que era um forró de verdade. A porta de entrada. O momento em que o disco virava corpo, suor e dança.
O Fenômeno Itaúnas
Para entender o forró universitário, é preciso entender Itaúnas. A pequena vila de pescadores no extremo norte do Espírito Santo, encostada na divisa com a Bahia, tem uma história que parece inventada: nos anos 1970, as dunas de areia avançaram sobre a vila original e a enterraram. Os moradores reconstruíram a cidade ao lado. Da antiga Itaúnas, só restam as torres da igreja velha emergindo da areia — um monumento involuntário à resiliência.
Essa história de soterramento e renascimento fez de Itaúnas um símbolo perfeito para o forró de raiz. Assim como a vila, o forró pé-de-serra havia sido enterrado pela avalanche eletrônica — e, assim como a vila, estava renascendo.
A partir dos anos 1990, Itaúnas se tornou o ponto de convergência do forró universitário. Seu Festival Nacional de Forró, realizado em julho, passou a atrair milhares de jovens de todo o Brasil. A vila, com menos de mil moradores no cotidiano, recebia até 30 mil visitantes durante o festival. Cada pousada, cada quintal, cada calçada virava palco ou pista de dança.
Itaúnas é o lugar onde o forró deixa de ser gênero musical e vira modo de vida. Você acorda com forró, almoça com forró, dorme com forró. A areia entra na sanfona, o sal entra na zabumba, e ninguém liga. O que importa é o pé no chão e o corpo no ritmo.
O fenômeno Itaúnas não foi apenas musical — foi social. Ali, estudantes de medicina dançavam com pescadores. Advogados de São Paulo aprendiam passos com senhoras de 70 anos que dançavam desde meninas. O forró fazia o que sempre fez: dissolvia fronteiras.
A Cena Universitária
O movimento não teve sede, não teve manifesto, não teve líder. Nasceu em múltiplos lugares ao mesmo tempo — como se a necessidade de reencontrar o forró de raiz fosse um impulso coletivo, uma sede compartilhada.
Na USP, na Unicamp, na PUC, na UFRJ, na UFMG — em quase toda grande universidade brasileira — começaram a surgir noites de "forró pé-de-serra". Uma sala emprestada, um trio acústico, entrada a cinco reais. Às vezes nem sala tinha: dançava-se no estacionamento, no pátio, no corredor do DCE. O som era precário, o chão era de concreto, mas a energia era de terreiro.
A dança se tornou o eixo. Diferente do forró eletrônico — onde a dança era livre, individual, desestruturada —, o forró pé-de-serra exigia a dança a dois. E a dança a dois exigia aula. Escolas de forró começaram a brotar em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba. Em poucos anos, havia centenas de professores de forró tradicional em atividade no Sudeste e no Sul.
A cena criou seus próprios circuitos: festas semanais em bares específicos, festivais de fim de semana em sítios e chácaras, caravanas de ônibus para Itaúnas. Era uma subcultura completa — com seus códigos, seus heróis, seus rituais. O forrozeiro universitário reconhecia outro forrozeiro pelo jeito de dançar, pela playlist do carro, pelo adesivo no notebook.
O Forró Atravessa o Oceano
Uma das consequências mais inesperadas do movimento universitário foi a internacionalização do forró. Estudantes brasileiros que iam fazer intercâmbio na Europa levavam consigo a dança e a música. Ao chegarem a Paris, Berlim, Londres, Amsterdã, faziam o que faziam no Brasil: procuravam um espaço, juntavam um trio, organizavam uma noite de forró.
Os europeus morderam a isca. A dança a dois — íntima, musical, acessível — conquistou franceses, alemães, ingleses, italianos. Festivais de forró começaram a surgir em toda a Europa: o Paris Forró Festival, o Forró de Domingo em Berlim, o London Forró Festival, o Stuttgart Forró Festival. Em cidades como Stuttgart e Paris, havia mais aulas de forró por semana do que em muitas capitais brasileiras.
O forró se juntou à salsa, ao tango e à kizomba no circuito global de danças de par. Mas manteve algo que os outros nem sempre tinham: a conexão com uma cultura viva, com uma música que ainda estava sendo feita, com uma tradição que não era peça de vitrine — era prática cotidiana.
Na Alemanha, as pessoas dançam forró com uma dedicação que impressiona. Estudam os ritmos, viajam ao Brasil, aprendem português para entender as letras. É um respeito pela tradição que, às vezes, envergonha a gente — porque muitos brasileiros nunca deram esse valor ao próprio forró.
Outros Nomes, Outras Estradas
O movimento universitário não se resumiu a três ou quatro bandas. Dezenas de grupos surgiram no rastro do fenômeno, cada um com sua identidade, cada um contribuindo para manter a tradição respirando.
Rastapé — formado em São Paulo em 2000, trouxe um forró festivo e dançante que fez sucesso em todo o Brasil. Sua música "Colo de Menina" se tornou um dos hinos do movimento.
Escurinho — compositor e sanfoneiro baiano radicado em São Paulo, manteve uma linha direta com o forró mais tradicional. Suas composições eram pontes entre o velho sertão e a cidade nova.
Mestre Ambrósio — de Recife, misturou forró com maracatu, ciranda, coco e rock. Não eram puristas — eram reinventores. Siba, seu líder, seguiu carreira solo como um dos músicos mais inventivos do Nordeste contemporâneo.
Dona Margarida Pereira — tocadora de pífano do interior pernambucano, redescoberta pelo circuito universitário, passou a se apresentar em festivais no Sudeste e na Europa, levando a música de fife e zabumba a plateias que jamais a teriam ouvido sem o movimento.
O Legado
O forró universitário — com todas as limitações do nome — fez algo que parecia impossível na virada do milênio: salvou o forró acústico da irrelevância comercial e cultural. Não sozinho, claro. Os mestres do Nordeste nunca pararam de tocar. Mas foi o movimento universitário que criou uma nova plateia, um novo mercado, uma nova geração de dançarinos e músicos comprometidos com o formato acústico.
Hoje, qualquer grande cidade brasileira tem pelo menos uma noite semanal de forró pé-de-serra. Há escolas de dança em todas as capitais. Há festivais em todos os estados. Há uma rede internacional com comunidades ativas em mais de 30 países. Nada disso existia antes do movimento.
O mais bonito, talvez, foi o efeito de retorno. Jovens que aprenderam a dançar em São Paulo começaram a viajar ao Nordeste para conhecer os mestres. Estudantes que descobriram Gonzaga pela Falamansa foram atrás dos discos originais. Dançarinos que aprenderam o passo básico num bar da Vila Madalena terminaram dançando no Parque do Povo, em Campina Grande, na maior festa de São João do mundo.
O resgate virou reencontro. O reencontro virou continuidade. E a continuidade — essa é a melhor parte — ainda está acontecendo.
O forró não precisava ser salvo. Ele é forte demais para morrer. Mas precisava de gente nova disposta a dançar. E essa gente apareceu — de onde ninguém esperava, na hora em que mais se precisava.

