No começo, chegavam de caminhão. Centenas de quilômetros de estrada empoeirada, espremidos nas tábuas estreitas dos "paus de arara". Traziam a roupa do corpo, o sotaque, a saudade — e a música.
Entre os anos 1930 e 1960, uma das maiores migrações internas da história brasileira redesenhou o mapa do país. Motivados pela seca constante, pelo latifúndio, pela pobreza e pela promessa de trabalho nas cidades industriais do sudeste, milhões de nordestinos deixaram a Paraíba, Pernambuco, Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte rumo ao Rio de Janeiro e a São Paulo.
Chegavam pela Estação Roosevelt — conhecida pelos funcionários ferroviários como "Estação do Norte". Todos os nordestinos eram chamados de "baianos", independente do estado de onde vinham. A Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo, chegou a receber 700 migrantes por dia em um único período. Nos anos 1950, aproximadamente 30% da população da Região Metropolitana de São Paulo já havia nascido no Norte ou Nordeste.
O forró como território
O forró não foi apenas para o sudeste — ele criou o sudeste nordestino.
Nos fins de semana, depois de quebrar pedra e furar buraco a semana toda, o migrante se arrumava todo e ia ao forró. A primeira casa de forró de São Paulo — o Forró do Pedro Sertanejo, na Mooca — foi inaugurada no começo dos anos 1960. Ali dentro, ao som da sanfona, o nordestino encontrava o conterrâneo, falava o sotaque sem vergonha, comia a comida da terra, dançava como dançava no sertão.
"No Forró do Pedro, o migrante quebrava a rotina disciplinar e se conectava a um universo lúdico, erótico, humano. O forró era um espaço-tempo em que se podiam encontrar os conterrâneos — uma estratégia de territorialização da cidade para que o migrante não se sentisse completamente desterritorializado."
Havia uma regra de ferro: o músico não podia parar de tocar mesmo se começasse uma briga. Porque se a música parasse, todo mundo olhava para a briga. Se a música continuasse, quem estava dançando não parava.
Gonzaga no Rio — a Rádio Nacional
Gonzaga chegou ao Rio em 1939. Mas não foi nos bairros elegantes que ele encontrou seu público — foi na Lapa, na Zona Norte, nos botecos da periferia carioca onde os migrantes nordestinos se encontravam. Eram eles que reconheciam aquelas melodias. Eram eles que choravam ao ouvir "Asa Branca".
Quando Gonzaga entrou na Rádio Nacional — o maior veículo de comunicação do Brasil na época, que chegava a todos os lares com rádio do país —, o baião encontrou o meio que precisava. De repente, a música que os migrantes ouviam no boteco da periferia estava na mesma rádio que transmitia os grandes nomes da MPB. O nordestino ganhava legitimidade. A saudade virava arte.
A Feira de São Cristóvão
Em 1945, os primeiros pracinhas que voltavam da Segunda Guerra Mundial desembarcaram no Campo de São Cristóvão, no Rio. Entre eles, muitos nordestinos. Sem ter onde se reunir, começaram a improvisar encontros nos arredores do campo — aos domingos, barracas de comida típica, viola, forró, repente.
Aquele encontro informal cresceu. Virou a Feira de São Cristóvão — hoje o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, com quase 700 barracas, dois palcos de forró, restaurantes de carne de sol e tapioca, e cerca de 400 mil visitantes por mês. Na entrada principal, uma estátua em tamanho real de Luiz Gonzaga. Os palcos têm nomes: Palco João do Vale, Palco Jackson do Pandeiro. As praças homenageiam Câmara Cascudo, Padre Cícero, Mestre Vitalino.
A Feira foi declarada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro em 2008 e patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2010.
São Miguel Paulista — a "Bahia Nova"
Em São Paulo, os nordestinos se concentraram nos bairros industriais da Zona Leste e do ABC Paulista. São Miguel Paulista — chamado de "Bahia Nova" nos anos 1950 — tinha uma Praça do Forró. Eram mais de 200 pontos de encontro nordestino espalhados pela cidade, segundo levantamento da época.
A presença nordestina foi estrutural para a construção de São Paulo. Aproximadamente 1,75 milhão de migrantes brasileiros — maioria nordestinos — passaram pela Hospedaria de Imigrantes do Brás entre os anos 1940 e 1960. Eles construíram avenidas, pontes, prédios, metrô. E nas madrugadas de sexta, pagavam ingresso no forró do Pedro.
O preconceito
A chegada não foi fácil. O preconceito era aberto. "Baiano" era xingamento no Rio. Os migrantes ocupavam as periferias porque os aluguéis caros do centro eram inacessíveis. As oportunidades de ascensão social eram restritas — as fronteiras da sociedade industrial já estavam marcadas quando chegaram.
A música foi a resposta mais poderosa. Não com raiva — com orgulho. Gonzaga não suavizou o sotaque. Não trocou o chapéu de couro pelo terno. Não pediu licença para existir. Ele entrou na Rádio Nacional de chapéu, gibão e sanfona, e fez o Brasil inteiro aprender a dançar baião.
