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Alceu Valença

Oropa, França e Bahia - Ao Vivo

Alceu Valença · Oropa, França e Bahia (Ao Vivo) (1989)

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Compositor: Alceu Valença

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Letra completa

Num sobradão arruinado

Tristonho, mal-assombrado

Que dava fundos pra terra

Pra ver marujo tiruliruliru

Quando vão pra guerra

E dava frente pro mar

Pra ver marujo tiruliruliru

A desembarcar


Morava Manuel Furtado

Português apatacado

Com Maria de Alencar!


Maria, era uma cafuza

Cheia de grandes feitiços

Ah! Os seus braços roliços

Ah! Os seus peitos maciços

Faziam Manuel babar


E a vida de Manuel

Que louco alguém o dizia

Era vigiar da janelas

Toda noite e todo o dia

As naus que ao longe passavam

De: Oropa, França e Bahia


— Me dá uma nau daquelas

Lhe suplicava Maria

— Estás idiota, Maria

Essas naus foram vintenas

Que eu herdei de minha tia!

E por todo o ouro do mundo

Eu jamais a trocaria!


Dou-te tudo que quiseres

Dou-te xale de Tonquim!

Dou-te uma saia bordada!

Dou-te leque de marfim!

Queijos da Serra Estrela

Perfumes de benjoim


Nada

A mulata só queria

Que seu Manuel lhe desse

Uma nauzinha daquelas

Inda a mais pichititinha

Pra ela ir ver essas terras

De Oropa, França e Bahia


— Ó Maria, hoje nós temos

Vinhos da quinta do Aguirre

Uma queijadas de Sintra

Só pra tu te distraire

Deste pensamento ruim

— Seu Manuel, isso é besteira!

Eu prefiro é macaxeira

Com galinha de oxinxim!


Ó Lua que alumias

Esse mundo de meu Deus

Alumia a mim também

Que ando fora dos meus

Ó Lua que alumias

Esse mundo de meu Deus

Alumia a mim também

Que ando fora dos meus

Cantava Seu Manuel

Espantando os males seus


Eu sou mulata dengosa

Linda, faceira, mimosa

Qual outras brancas não são

Eu sou mulata dengosa

Linda, faceira, mimosa

Qual outras brancas não são

Cantava forte Maria

Pisando fubá de milho

Lentamente no pilão


E numa noite de luar

Que estava mesmo taful

Mais de 400 naus

Surgiram vindas do Sul

Ah! Seu Manuel, isso chega

Danou-se de escada abaixo

Se atirou no mar azul


Onde vais mulhé?

Vou me daná no carrosé!

Tu não vais, mulhé

Mulhé, você não vai lá


Maria atirou-se n'água

Seu Manuel seguiu atrás

Quero a mais pichititinha!

Raios te partam, Maria!

Essas naus são meus tesouros

Ganhou-as matando mouros

O marido de minha tia!

Vêm dos confins do mundo

De Oropa, França e Bahia


Nadavam de mar em fora

(Manuel atrás de Maria!)

Passou-se uma hora, outra hora

E as naus nenhum atingia

Faz-se um silêncio nas águas

Cadê Manuel e Maria?


De madrugada, na praia

Dois corpos o mar lambia

Seu Manuel era um Boi Morto

Maria, uma Cotovia!


E as naus de Manuel Furtado

Herança de sua tia?


Continuam mar em fora

Navegando noite e dia

Caminhando pra Pasárgada

Para o reino da Poesia!

Herdou-as Manuel Bandeira

Que, ante a minha choradeira

Me deu a menor que havia!


As eternas naus do Sonho

De Oropa, França e Bahia

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